sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"Bloco do Eu Sozinho"

Passando por cima de qualquer discussão sobre gostar de Los Hermanos, venho dividir minha percepção social nos últimos tempos.


Não sei se acontece somente em São Paulo, mas tenho notado que estamos cada vez mais sozinhos. E o pior: estamos assim por opção.
Reduzimos o nosso espaço e colaboramos com a solidão.


Procurando imóveis, notei que é grande o número de apartamentos de apenas um quarto. Um casal? Não. Um solteiro. O casal sempre escolhe um apartamento de 2 quartos. Finge que o quarto vago servirá de escritório, mas na verdade é só um espaço para visitar quando a vontade de esganar o outro se tornar insuportável. É um daqueles acordos silenciosos que fazemos.


Até mesmo os carros estão encolhendo. Todos querem compacto e confortável, como a zona em que se encontram. Penso que uma pessoa que escolhe viver sozinha se encaixa em dois extremos: ou sente muito medo de se arriscar numa relação e ter que se refazer se algo der errado, ou é a mais bem resolvida de todas. Posso garantir que todos nos sentimentos inseridos no 2º bloco.


Nos apegamos a animais de estimação porque são fiéis, nos amam até em bad hair day. Os filhos são opcionais. Invertemos as regras do jogo.


De fato, preciso reconhecer que precisamos ser muito ousados para dizer "quem manda nesta porra sou eu!" e finalmente agir. Sim, agir. Falar é fácil. A responsabilidade pesa nos ombros quando percebemos que somos os únicos a arcar com as despesas. Um amigo que sentiu sua posição ameaçada no trabalho se queixou comigo dias atrás "Eu não posso perder o emprego! Tenho um cão para sustentar!". E é bem por aí mesmo. Viramos gente quando passamos a ser responsáveis por outro ser, não necessariamente uma pessoa.


Alguns de nós saem de casa por uma pressão estúpida da sociedade que obriga todos os filhos acima de 30 anos a abandonarem a casa dos pais. Outros porque querem uma liberdade que finda em um mês. Festas de virar a noite, gente dormindo no chão.
Você não quer isso. Você vira a sua mãe.
Começa a selecionar melhor os seus amigos e pensamentos sobre "más influências" invadem a sua cabeça. Passa até mesmo a cozinhar de avental - antes de se convencer de que o delivery é uma bênção divina.
Faz barulho com as chaves para não se sentir tão só.


Outros se jogam no trabalho num salto mortal carpo triplo e entram no lar doce lar apenas para dormir. Só caem na real na hora de lavar a roupa. E não é que é verdade que as cuecas/calcinhas não são auto-limpantes? Andar pelado pela casa por 10 minutos e se sentir estúpido demais por isso mudará os seus conceitos.


Eu sei que é legal ter um espaço para si onde você possa curtir todos os seus hábitos nojentos, como espremer espinhas e peidar no sofá da sala (se ele existir) assistindo ao jogo do Manchester United. Sim, é verdade! Você tem o melhor pacote de tv a cabo.


Alimentação? Quem? De segunda a sexta dá para enganar com o pessoal do trabalho na hora do almoço e a happy hour é quase obrigatória. Nos fins de semana, só Deus sabe!


Algum solitário se intitulou "boêmio" e isso deu um tom mais importante à condição. É cool, como ser publicitário nos anos 90. Hoje é mais legal ser hairdresser ou "atacar de DJ".

5 comentários:

OGROLÂNDIA disse...

A sociedade vai chegando a um ponto em que o próprio nome sociedade vai ficar para uniões comerciais, já que o convívio social está cada vez mais uma opção.
Esses indícios de individualismo vão sendo vistos em vários aspectos. A internet é um deles. Música? No mp3 ou no computador. Filmes? Computador.
Tudo eu comigo mesmo na internet.
Até nos esportes. O esporte coletivo por excelência vem perdendo espaço e sendo substituído no gosto popular pelo UFC.
Cada vez mais a unidade vai se separando do todo.
CAda um por si, e Deus contra todos.

Marcelle Gália (Celle) disse...

tirando a parte em que falou de Deus, até q concordo...

· Dany Souza disse...

A gente reclama e reclama que não tem privacidade, mas só é consegui-la que instantaneamente sentimos falta de, justamente, sua ausência.
kkk

Ariane Galindo disse...

Solidão é um estado de espírito!
Já paramos pra pensar se não estamos deixando simplesmente de aturar as coisas que antigamente eramos obrigados a aceitar diante do inconsciente coletivo enraizado em nossas mentes? Por medo de impor nossas opiniões!
Difícil conseguir definir realmente um porquê, mas costumo dizer que São Paulo é a Capital da Solidão!

Beijo

Suelen Lemos disse...

Ótimo seu texto, como sempre!!!
Mais acho que só saio da casa dos meus pais, pra morrar com outra pessoa depois de ter a absoluta certeza rs...Bjs